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III - Sombra do passado

Bateu a porta que dava acesso ao porão escuro, de onde ainda podia ouvir as risadas de seu prisioneiro. Estava confuso. Sentia raiva do que acontecera, embora a imagem do rosto do herege mordendo o lábio não saísse de seus pensamentos, e o pulsar em seu peito lhe denunciavam. Mas não podia pensar nisso. Não queria que aquilo acontecesse denovo... 
Andou até o sofá marrom que estava encostado em uma das paredes da sala, se sentou e abaixou a cabeça, deixando que as lembranças de um passado doloroso retornassem. 


          O sol brilhava forte naquela tarde de verão, e o vento carregava consigo o cheiro do pólen das muitas flores que cresciam pelo campo. Em uma casa rosada simples, um rapaz de pele clara e cabelos pretos curtos almoçava com sua mãe e seus avós. Devia ter por volta de seus treze anos.

- Como foi a aula, querido? – Perguntou uma mulher jovem e bonita, cujos cabelos pretos ondulados escorriam até a cintura, e os olhos castanhos intensos pareciam ser capazes de enxergar através da alma.

- Foi boa. – Respondeu o garoto, levantando o rosto para olhar para sua mãe. Tinha olhos iguais aos dela. – Tive teste de matemática hoje. Posso sair à noite?

- Aonde você vai? – Perguntou a avó, sentada em uma das extremidades da mesa. Tinha um rosto bonito e simpático, apesar de castigado pelo tempo, e cabelos castanhos ondulados ate o pescoço.

- Vou à igreja. Hoje tem oração do terço.  – Disse o garoto, sorrindo.

- Meu filho, tenha cuidado... – Disse a avó.

- Gabriel, pode ir, mas tome cuidado. – Disse sua mãe.

- Esta bem.

O avô nada falou. Nunca fora de falar muito. E o jovem Gabriel continuou comendo, feliz por ter recebido permissão para sair. Porém não seria a fé católica a verdadeira razão para sua saída naquela noite, mas sim um encontro com Pedro, o rapaz que ele sempre ficava admirando durante os intervalos das aulas, do qual se tornou amigo para poder estar sempre mais próximo, e que enfim criou coragem para convidar a um passeio, onde pretendia se declarar para o garoto.
O jovem Gabriel tinha uma vida tranquila. Morava em uma pequena cidade de interior, com sua mãe e seus avós. Nunca conhecera seu pai, e o pouco que sabia sobre ele era o que haviam lhe contado: que era um canalha, seduziu sua mãe com juras de amor e depois de dormirem juntos, tiveram uma séria discussão, e ele abandonou a mãe de Gabriel enquanto ele crescia em seu ventre. Nem mesmo o nome do homem disseram ao garoto.
Enquanto a tarde avançava, a ansiedade do jovem Gabriel só aumentava. Começou a sentir uma estranha dor de cabeça, mas não deu importância a isso. Logo, o sol já estava se pondo, e o rapaz, que usava uma calça jeans nova e uma camisa branca e preta, saia empolgado da casa de seus avós.

- Já estou indo. A benção, vó. A benção, vô. A benção, mãe.

- Deus lhe abençoe. – Responderam seus responsáveis, em coro.

- Tenha cuidado, meu filho. – Disse sua mãe.

- Ta bem, mãe. - Respondeu Gabriel, enquanto beijava a bochecha da bela mulher.

O garoto correu pela estrada de barro que levava a sua casa, sentindo o cheiro das frutas e das flores do campo. A medida que o sol se despedia no horizonte, sua dor de cabeça aumentava. O rapaz, cujo rosto era a expressão exata da felicidade, passou correndo em frente a uma casa azul, guardada por uma caminhonete ford F5, velha e desbotada, passou em frente a uma casa branca abandonada, desceu uma pequena ladeira e subiu outra, e no alto da subida estava sua recompensa: Pedro o esperava, com uma bermuda jeans escura e uma camiseta cinza, cabelos castanhos bagunçados e belos olhos verdes. O rapaz acenou, e Gabriel retribuiu o aceno, chegando enfim até onde Pedro estava.

- Boa... Tarde... – Falou Gabriel, enquanto tentava recuperar o folego.

- Boa tarde. – Respondeu Pedro, confuso. – O que houve, cara?

- Nada. – Disse Gabriel, enfim conseguindo falar.

- E aí? Como você tá?

- To bem. Só cansado. E você?

- To tranquilo. E aí? Aonde vamos?

- Só andar um pouco. Queria falar contigo.

- Ta bem.

As ultimas luzes do dia faziam sua despedida, enquanto os dois garotos andavam por uma estrada estreita. A dor de cabeça de Gabriel começou a se expandir para os braços. "Deve ser ansiedade, ou nervosismo", pensou.

- E então, como estão as coisas?

- Tranquilas. – Pedro colocou as mãos atrás do pescoço e se espreguiçou, erguendo os cotovelos. Gabriel adorava quando ele fazia isso.

- E o coração?

- Batendo... E o seu?

- Batendo forte. – Gabriel não conseguiu esconder o sorriso ao responder essa pergunta.

- Legal cara! Por quem?

- Uma pessoa que nem deve saber o que sinto.

- É sempre assim...

Agora, o céu estava escuro, e a iluminação vinha dos poucos postes espalhados pela estrada. A lua começava a surgir no horizonte, e agora o corpo inteiro de Gabriel parecia doer e formigar.

- Já falou isso pra ela? – Perguntou Pedro, na esperança de ajudar o amigo.

- Ainda não. – Respondeu Gabriel, de maneira tímida.

- E por que não disse ainda?

- To... To falando agora... – Disse, abaixando a cabeça.

- Hã? – Pedro parou, confuso. – O que?

- Eu... – Gabriel levantou a cabeça, mostrando seu rosto corado. – É... É de você que eu gosto.

Pedro tirou as mãos de trás do pescoço, e estendeu-as para a frente, se afastando de sua companhia.

- Olha só... Eu sei que nessa idade os hormônios explodem... Nos sentimos estranhos... Mas, não cara. Que nojo!

Gabriel não conseguia acreditar no que ouvia. Em sua mente, tudo seria perfeito. Ele o abraçaria, e os dois ficariam assim por um bom tempo. Por que ele estava agindo daquele modo?! Essas perguntas ficariam para depois, pois a lua se erguia, grande e luminosa. Era lua cheia, e o rapaz caiu no chão, surpreendido pela dor em sua cabeça e seu corpo, que aumentavam descomunalmente.

- Ei. Calma. – Disse Pedro, assustado, enquanto se aproximava de Gabriel, que estava ajoelhado e segurando a cabeça com as duas mãos. – Olha, não é o fim do mundo. Relaxa. Eu... Eu sei que você vai encontrar alguém que...   – E não pode terminar a frase. Gabriel levantou a cabeça, e ao encara-lo o olhar amarelo intenso no rosto do garoto marcou Pedro pelo que lhe restaria de sua vida.

Um grito de horror ecoou naquela noite, seguido de um uivo.

Gabriel sentiu o calor do sol cobrir e aquecer o seu corpo. Sua cabeça doía muito. Abriu os olhos, e viu um céu claro e com poucas nuvens acima da sua cabeça. Não sabia onde estava, só sabia que estava deitado e que sua boca estava com um gosto estranho. Sentou-se, e então pode ver que estava sem camisa, e que restavam apenas retalhos de sua calça. Viu sangue em suas mãos e em seu peito, mas não era seu. Estava com medo. Levantou, e então começou a reconhecer o lugar, um campo gramado com algumas árvores em volta, não muito longe da estrada por onde estava caminhando com Pedro. Começou a se perguntar onde ele estaria. Andou um pouco, e logo achou algumas manchas de sangue na grama baixa do terreno onde estava. Seguiu aqueles rastros, e logo se arrependeu de tê-lo feito. Encontrou sangue, pedaços de roupa e carne, e o que restou de Pedro, que agora parecia ter sido dilacerado por algum animal selvagem. Gabriel começou a chorar, enquanto as lembranças do que havia acontecido na noite anterior voltavam como lampejos em sua mente. Não conseguia acreditar no que via. Não conseguia aceitar que ele fizera aquilo com o rapaz por quem se interessou. Gabriel entrou em pânico, e começou a correr, chorando, com medo mesmo de olhar para trás. "Não é possível! Não é possível! Não! Não!" era só o que conseguia pensar. Passou pela casa branca abandonada, pela casa azul, e logo estava em frente a casa de seus avós. Bateu a porta desesperadamente, até que ouviu o som de fechaduras sendo abertas, e a voz de sua avó perguntando quem era. Quando enfim a porta foi aberta, entrou correndo, viu sua mãe bem na sua frente, usando um vestido amarelo, e abraçou-a sem pensar duas vezes.

- Meu filho! O que houve?! Estávamos preocupados, e... – Não conseguiu continuar.

Gabriel levantou o rosto para sua mãe, e a preocupação dela se tornou medo e horror. Seu filho estava com a boca, o pescoço, o peito e os braços sujos de sangue, seus caninos estavam maiores que os outros dentes, e seus olhos agora eram amarelos. Sandra caiu no chão, chorando e gritando, enquanto a avó de Gabriel corria para abraçá-la, e o avô pegava uma foice que estivera escondida atrás da porta. O rapaz não conseguia entender porque estavam agindo assim. Porque tudo isso estava acontecendo com ele.

- Ele virou um monstro, igual o pai! – Ouviu seu avô bradar, enquanto erguia a foice no ar.

- Não! – Gritou sua avó, que segurou os braços de seu marido antes que ele atacasse o rapaz.

Estava aterrorizado, confuso, e agora sua família queria mata-lo. Gabriel saiu correndo pela mesma porta por onde entrou, ouvindo o pranto de sua mãe e os gritos de seu avô.

Correu em direção a algumas árvores. Tentou se esconder entre elas, mas ouviu um bater de asas as suas costas. Virou-se, assustado, mas era apenas um pássaro que pousara em um galho no topo de uma árvore. Como podia tê-lo ouvido tão alto e tão próximo?!

Depois de um tempo escondido, ouviu vozes irritadas se aproximando, e viu que era um grupo de homens armados de ferramentas rurais. Estavam vindo caçá-lo. Lágrimas escorriam por seus olhos, enquanto corria sem rumo, até que achou a pequena igreja para onde dissera aos seus responsáveis que iria na noite passada. Era uma construção pequena, feita de pedras, com belos vitrais coloridos que retratavam passagens bíblicas, e portas de madeira pesada. O rapaz correu até as portas da igreja, e começou a bater desesperadamente, até que ouvi-as sendo destrancadas, e um padre as abriu. Entrou na igreja sem pensar duas vezes, e se jogou contra uma das paredes, escorregou e caiu sentado, chorando. Só conseguia pensar em chorar. O padre, um homem velho que usava uma batina marrom simples, com alguns cabelos grisalhos, se aproximou.

- Por Deus, o que houve?! – Disse o padre, se ajoelhando na frente do garoto. – Quem é você?

- Ga... Ga... Gabriel. – Tentava falar entre as lágrimas. – Va... Va... Valen... Ce.


          O homem de sobretudo preto limpou as lágrimas que aquelas lembranças lhe traziam. Abriu os olhos, que outrora tiveram um tom castanho intenso, mas agora estavam sem brilho. O último por quem ele se interessou acabou destroçado, e ele sabe que enquanto carregar aquela maldição monstruosa, perderá tudo o que tiver.

- Esses sentimentos são luxos que pertencem a poucos. – Disse a si mesmo, antes de subir para seu quarto. Precisava entrar em contato com seus superiores.

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