O Colégio Luz da Alvorada era uma das poucas escolas que existiam naquela cidade de interior, e era a mais bem recomendada de todas. Apesar de ser pública, era preciso fazer uma prova para poder ser admitido como um aluno dela. A instituição tinha dois andares, um ginásio e um pátio gramado e com árvores frutíferas que ficava no centro da escola, o que ajudava a manter o local arejado e refrigerado, mesmo nos dias mais quentes. O cheiro de alguma fruta sempre impregnava os corredores do lugar, pois as árvores do pátio tinham safras em diferentes épocas do ano, e os alunos da escola sempre comiam as frutas de lá quando se esqueciam de levar lanche para a aula. Na frente da escola, ao lado do portão principal erguia-se uma torre com um grande relógio em cada uma das quatro paredes, e dentro dela um grande sino tocava quatro vezes ao dia: as seis da manhã, ao meio-dia, as seis da tarde e a meia-noite.
Naquele fim de tarde uma garota andava solitária pelos corredores da escola vazia. Por ser o período de férias de inverno, não haviam outras pessoas ali. A garota, de cabelos pretos lisos curtos e olhos azuis, usava uma camiseta preta com o rosto de um alienígena verde estampado, bermuda jeans, um casaco quadriculado vermelho-e-preto amarrado na cintura e tênis laranja-e-cinza. Sempre que encontrava uma porta, conferia se a mesma estava trancada, e após conferir a última porta, virou-se e foi até o outro lado do corredor, se apoiou na bancada e olhou para o pátio no centro da escola, de onde conseguia ver quase toda a instituição, menos o ginásio, pois este ficava por trás da construção. Começou a ouvir um ruído vindo do céu, e logo em seguida o som rasgante de um jato sobrevoando a cidade.
- Mas que diabos... – A garota não terminou a frase, e saiu correndo.
Atravessou o corredor e chegou a uma sala de aula, puxou um grande chaveiro com dezenas de chaves enumeradas e com uma delas abriu a porta. Atravessou a sala de aula, cujas cadeiras e mesas dos alunos estavam perfeitamente alinhadas, e foi até uma das duas grandes janelas daquela sala, olhou para o céu mas não viu nenhum sinal do veículo que fizera aquele barulho. Começou a se perguntar o porque daquele jato estar passando por lá, e se isso teria algo haver com o tal grupo criminoso do qual fora alertada pelos militares quando saiu de casa. Todas aquelas dúvidas desapareceram de sua mente no momento em que viu um rapaz alto usando uma camiseta camuflada cinza e uma mochila camuflada verde surgindo de trás de uma casa amarela e correndo em direção a escola. A garota saiu da sala de aula e correu em direção ao fim do corredor, no qual havia uma escadaria que dava acesso ao andar de baixo e ao portão principal do prédio, duas grandes portas de madeira com floreios talhados. Abriu a porta direita do portão, a tempo de ver o rapaz correr em direção as janelas de uma sala que ficava a direita do portão.
- Brendan! – Gritou a moça, chamando a atenção do garoto, que correu em sua direção ao ver a porta aberta.
A garota deu um passo para o lado, permitindo a entrada de Brendan na escola. Quando entrou, deu um forte abraço em sua anfitriã, e fechou a porta.
- Brendan, o que você está fazendo?! – Perguntou a garota, confusa. – Quando você chegou?
- Hoje mais cedo. – Respondeu Brendan, arrumando o cabelo bagunçado pois alguns fios molhados de suor estavam caindo sobre os olhos.
- Pega. Usa isso. – Disse a moça, tirando debaixo do casaco amarrado em sua cintura, de um dos bolsos de trás da bermuda um tipo de tiara prateada e a entregando para Brendan, que a usou para prender seus cabelos.
- Obrigado, Melissa. Mas desde quando você tem isso? – Questionou Brendan, olhando para os cabelos pretos curtos da amiga.
- Comprei hoje pela manhã. Você disse que talvez voltasse hoje da casa da sua tia, então achei que iria gostar. – Disse Melissa, ficando um pouco corada e olhando para o lado.
Algumas pessoas têm os chamados “melhores amigos” desde a infância, outras se tornam melhores amigas pouco tempo depois que se conhecem. Esse é o caso de Brendan e Melissa, que se conheceram a apenas três anos, quando por acaso foram fazer sua inscrição para a avaliação que poderia lhes dar o direito de se tornarem alunos do Colégio Luz da Alvorada. Inicialmente, não deram muita atenção um ao outro, mas isso bastou para que tivessem algo sobre o que conversar em seu primeiro dia de aula naquela escola, quando descobriram que iriam estudar com os mesmos professores, e desde então se tornaram a dupla de melhores amigos mais improvável daquela escola: o rapaz prodígio, popular entre os alunos e com excelente forma e aptidão física, e a garota rebelde filha do porteiro da escola e tida como maluca por metade do corpo docente, por acreditar em teorias de conspiração e seres sobrenaturais. Brendan adorava ouvir as teorias incomuns de Melissa sobre uma sociedade secreta de pessoas com poderes especiais, viajantes do tempo, realidades alternativas, seres extraterrenos que influenciaram na história da humanidade, e como os governos tentavam desesperadamente encobrir tudo com boatos mal contados. Adorava também questiona-la com dados e fatos históricos, o que apenas a ajudava a criar suas próprias teorias. Melissa, por sua vez, ficou encantada ao ver que Brendan não era como os outros adolescentes da cidade, e que com ele poderia conversar a vontade sem o medo de olhares tortos ou de ser tratada como esquisita e maluca. E também, devido ao belo rosto do rapaz, seus olhos cor-de-mel, e o corpo bem trabalhado, Melissa acabou desenvolvendo por ele um sentimento perigoso, que poderia acabar comprometendo a amizade.
- Você fugiu de casa, tentou ir embora com os militares que estavam aqui, e quando viu que eles não estavam mais na praça correu para cá para se abrigar até o próximo ônibus que sai da cidade... – Melissa repetia para si toda a história que o rapaz acabara de lhe contar, em pé de frente para a escadaria, onde Brendan estava sentado olhando para ela. – Você ficou maluco?! – Esbravejou.
O pensamento que passou pela mente de Brendan naquele momento foi: “Ela é a louca mais sensata que eu já vi.”. O diálogo dos jovens foi interrompido pelo forte som de um raio, e em seguida começaram a ouvir gotas de chuva cair.
- Passou pela sua cabeça, em algum momento, que seu pai talvez tenha dito aquelas coisas por se preocupar com você? – Questionou Melissa, irritada e indignada com a atitude do amigo.
- Meu pai nunca reagiu dessa maneira antes. Nem quando eu comecei a me exercitar e nem quando eu comecei a treinar. Pelo contrário, ele mesmo me ensinou algumas técnicas de luta. E acha que eu não sou capaz de cuidar de mim mesmo?
- Exatamente! Você só tem 17 anos! Não é porque você mais forte que a maioria dos garotos da sua idade e sabe alguns movimentos de luta que está pronto para lutar em uma guerra! Aquilo não é um passeio num jardim!
- Eu sei que não é assim tão fácil! Eu sei que é perigoso! Mas... – Brendan abaixou a cabeça. – O que custa ele acreditar só um pouco em mim? Que talvez eu possa ser como ele... – Olhou para o canto, irritado. – E você? Por que está aqui na escola no meio das férias? – Perguntou o rapaz, tentando mudar de assunto.
- Meu pai me pediu para ajuda-lo a cuidar da escola durante as férias, e disse que me daria um celular novo se eu ajudasse. Então... Estou aqui. – Respondeu Melissa, se acalmando.
Brendan e Melissa se assustaram ao ouvir o som de outro raio, dessa vez muito mais forte, e perceberam que a chuva se intensificou.
- E eu não trouxe guarda-chuva. – O rosto da garota empalideceu.
- Melhor você esperar a chuva passar. – Disse Brendan, se levantando e subindo a escadaria às suas costas. – Vamos dar uma olhada.
Os dois garotos subiram até o andar de cima, foram até uma das salas de aula, entraram e se sentaram em duas cadeiras ao lado da janela. Viram um homem de azul correndo na chuva, e entrando em uma casa verde ao lado do terreno da escola.
- Então... Você acha que os militares conseguiram pegar o grupo terrorista? – Perguntou Melissa, olhando para o rapaz e tentando puxar assunto.
- Talvez. Eles saíram muito rápido. – Respondeu Brendan, olhando a chuva forte cair.
Melissa observou o amigo por alguns minutos, admirando a expressão pensativa e os olhos claros dele, e o acessório em seus cabelos, que na opinião da moça davam um charme a mais. Sentiu seu rosto ficando quente, e sabia que estava ficando corada.
- Brendan... Eu... – As tímidas palavras da garota foram interrompidas pelo som, um pouco distante, de uma freada violenta e a colisão de um veículo. Ambos olharam na direção de onde o som viera, algumas ruas de distância da frente da escola. A chuva começava a diminuir. – O que foi isso?! – Perguntou a garota.
Ouviram então um grito feminino que parecia carregar consigo a essência do desespero, vindo da casa verde ao lado da escola, para onde fora o homem que fugia da chuva. Os garotos olharam na direção daquela casa, e viram a porta ser aberta e de lá sair correndo uma mulher de meia-idade que usava um vestido amarelo e um avental branco, e atrás dela viera o homem que a poucos minutos havia entrado na casa. Sua camisa azul estava manchada de vermelho escuro, e ele corria de um jeito estranho, como se tentasse não tropeçar nas próprias pernas. A mulher conseguiu correr até a frente da escola, onde escorregou na rua molhada e caiu. O homem a alcançou, e então se jogou sobre ela, que gritava enquanto ele a mordia no pescoço, rasgando pele e veias que ali havia. Pode-se ouvir outro grito vindo da mesma direção que o som de colisão de um carro, e Melissa sentiu o medo tomar conta de sua mente, enquanto a cor fugia de sua pele.
- Não... – Foi a única palavra que a garota conseguiu pronunciar.
- Mas que mer... – Disse Brendan, que se levantou e começou a correr em direção a porta, mas foi segurando por Melissa.
- Não! – A garota falou, quase abraçando o rapaz.
- Melissa, o que foi?! – Perguntou o rapaz, preocupado ao perceber o medo estampado no rosto da amiga, que estava pálida.
- Não vai! – Respondeu desesperada, e então começou a puxa-lo de volta para a janela.
- Melissa, o que você está fazendo?! – Questionou, tentando se equilibrar enquanto sua amiga o arrastava.
Mas as palavras dele não estavam chegando até a garota, pois seus pensamentos estavam todos voltados para uma única possibilidade. Para ela, a pior de todas...
Ao chegarem a janela, viram uma grande mancha vermelha vinda do corpo da mulher de avental que estava jogado no meio da rua com o pescoço e uma parte do queixo dilacerados, deixando alguns dentes a mostra, e o homem de azul, agora mais sujo de vermelho, caminhava de daquele jeito estranho, um pouco bambo, em direção ao centro da pequena cidade, de onde viera o som de acidente de carro e o grito. Agora era possível ouvir outros gritos, mais distante, como se estivessem se espalhando pela cidade.
- O que diabos está acontecendo? – Brendan se perguntou, franzindo a testa.
Mas a confusão do rapaz só aumentou ao ver o corpo da mulher de avental começar a se debater, como se estivesse tendo uma convulsão. A mulher se virou para o lado e se levantou lentamente, a mesma velocidade com a qual Brendan sentia o calor fugir de seu corpo e o frio tomar conta dos ossos de suas pernas. Logo a mulher estava em pé, com o sangue de seu pescoço escorrendo por seu vestido amarelo e seu avental. Ela começou a andar da mesma maneira estranha que o homem, também em direção ao centro da cidade.
- Não pode ser... Não é possível... – A garota falava abafado, com uma mão sobre a boca, quase chorando, enquanto ouvia o rapaz ao lado dela xingar diversas vezes enquanto se afastava da janela, até que esbarrou na mesa de soltou um grito. Percebendo isso, a garota se virou para o amigo e correu na direção dele, fechando a boca dele com a mão. – Não grita! – Tentava falar em um tom baixo, apesar de sua verdadeira vontade ser de entrar em desespero. – Não grita!
- Mas que... Caramba! Você viu aquilo?! – Brendan tirou a mão dela de sua boca e tentava falar, mas seus pensamentos estavam confusos demais para conseguir formar frases longas.
- Sim, eu vi. Acalme-se! – Respondeu Melissa, sem saber se estava falando para Brendan ou para ela mesma.
- O que foi aquilo?! Caramba, o que foi aquilo?! – O rapaz levava as mãos à cabeça e começava a andar pela sala, tentando organizar os próprios pensamentos.
- Eu não sei. – A garota apoiava as mãos no pescoço e respirava fundo. – Quer dizer, eu acho que não sei. Mas acho que sei...
- Sabe ou não sabe?! – Questionou, quase gritando, enquanto também tentava respirar fundo.
- Acho que sei! Mas não tenho certeza.
- Então... Diga!
- É loucura...
- Diga!
- Só pode ser loucura! Deve ser outra coisa! Eu só preciso pensar e...
- Fala!!
- Zumbis. – Disse Melissa, e foi como se o som daquela palavra cortasse o ar.
- O que?! – Brendan não conseguia acreditar no que ouvia. – Você ta brincando comigo?!
- Não. Você viu o que aconteceu! Aquele cara estraçalhou o pescoço dela, e depois ela se levantou! Ela deveria estar morta! – Disse Melissa, embora também quisesse que aquilo não passasse de uma tremenda brincadeira de mau gosto, ou uma alucinação.
Melissa ouviu Brendan xingar novamente, e depois ir em direção a janela. Agora, a noite já começava a chegar, e a luz dos postes se tornava a única forma de enxergar as ruas, enquanto a chuva terminava de lavar o sangue da rua a medida que ia ficando mais branda. Logo já estava completamente escuro, e o rapaz tateou até o outro lado da sala, procurando um interruptor. Ao encontra-lo, acendeu as lâmpadas da sala de aula.
- Não! – Disse a garota, correndo na direção do interruptor e apagou as luzes.
- O que você ta fazendo?! – Perguntou Brendan a amiga.
- A luz pode acabar atraindo eles para cá. – Respondeu.
- Não seja ridícula. Aquilo não era um zumbi. Aquele homem deve ter algum problema psicológico, e acabou atacando a própria esposa!
- E como você explica ela ter se levantado, mesmo sem a garganta?
- Talvez ela não estivesse morta... – Brendan respondeu apesar não ter certeza se ela poderia não estar morta depois de ter perdido tanto sangue.
- Mas ela foi em direção ao centro da cidade! A mesma direção que ele!
- Melissa, o hospital fica no centro da cidade. Ela deve ter ido pedir ajuda.
- Meu Deus! O hospital! – Melissa cobriu a boca com a mão, sentindo uma nova onda de pavor tomar conta de seu corpo. – O hospital!
Ouviram o cessar das últimas gotas da chuva, e então um novo gritou vindo da direção em que o casal seguiu gelou o peito dos garotos. Brendan sentiu a amiga apertar seu braço com força.
- Céus, olha só! Deve ter acontecido alguma coisa no centro da cidade, e alguém pode estar precisando de ajuda. Ou aquela mulher mesmo pode ter caído em algum lugar pela rua.
Um som de guitarra saiu do bolso do rapaz, que se assustou com o toque de ligação de seu celular. Puxou o aparelho, e viu o rosto sorridente e os cabelos loiros ondulados de sua mãe, cuja foto estava acesa na tela do celular enquanto o som de guitarra se espalhava pela escola. O rapaz atendeu a ligação, e levou o celular ao ouvido.
- Mãe? – Chamou o rapaz.
- Brendan?! Alô?! – Podia-se ouvir a voz preocupada de Mary, apesar da forte interferência na ligação.
- Mãe! Oi! Estou ouvindo!
- Pelos céus, filho! Onde você... – Não conseguiu ouvir, devido ao chiado da interferência. – Já te liguei umas dez vezes... Seu pai saiu e nós... - Mais interferência. - Onde você está?!
- Estou no Luz da Alvorada. Melissa está comigo. Nos refugiamos da chuva aqui.
- No Luz... Não saia daí, seu pai e eu... – O rapaz pode ouvir o som de uma porta batendo e um breve grito de sua mãe. –Pelo amor de Deus, John, o que... John tranque a porta! – Foi a última coisa que conseguiu ouvir antes que a ligação caísse.
- Alô?! Mãe?! Alô?! – O rapaz repetiu desesperado, levando o celular ao ouvido, até que viu que a chamada havia caído.
Brendan tentou ligar novamente para sua mãe, mas ouviu apenas uma sequência de bips, e então viu que o indicador de antena do celular mostrava que não havia mais sinal.
- Preciso ir para casa. – Disse o rapaz, se levantando.
- O que?! Não, você ouviu sua mãe! Devemos esperar aqui. – Melissa se levantou também.
- Não. Eu ouvi um barulho e... Eu preciso ver se eles estão bem.
- Brendan, você não pode!
- São os meus pais! – Disse o rapaz, com um brilho de fúria em seus olhos cor-de-mel, fazendo com que a garota desse um passo para trás.
- Está bem. – Consentiu a garota. – Mas tome muito cuidado. Eu vou te esperar aqui na escola.
- Você continua achando que é um apocalipse zumbi, não é mesmo? – Perguntou Brendan, se acalmando.
- Vejamos se você ainda vai duvidar de mim... Quando voltar... - A garota sentiu uma nova onda de aflição tomar conta do seu peito, e precisou respirar fundo para não falar "Se voltar".
Só houve uma vez em que Melissa havia visto aquele brilho nos olhos de seu amigo. Foi quando alguns garotos tentaram pregar uma peça nela, no ano anterior. Quando viu que iriam tentar machuca-la, Brendan avançou em cima do grupo de quatro adolescentes e testou neles todos os movimentos de luta que aprendera. Em sua lembrança daquele dia, apesar de saber que Brendan estaria lá para protegê-la, naquele momento a garota não conseguiu deixar de sentir medo, pois não viu nenhuma humanidade no brilho furioso daquele olhar.
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