Icaro despertou com batidas na porta, seguidas pela voz da sua mãe que viera avisar que o almoço estava pronto. Percebeu então que havia cochilado, principalmente porque não havia desfeito sua bagagem. Levantou da cama, e foi em direção a janela do quarto, de onde sentia o vento morno daquele início de tarde acariciar seu rosto enquanto balançava os galhos do cajueiro que estava ao lado da janela, no quintal da casa. Virou-se para ir em direção a porta do quarto e sair, e só então notou o espelho que estava na parede atrás dele. Deu alguns passos, atento a imagem que o observava através do reflexo. Fitou com atenção aquele rapaz alto e magro, que usava botas e calça jeans. Usava também uma regata preta com os dizeres "No Future" e a imagem de um olho em branco-e-preto ao fundo. O rosto era claro, com pelos de barba surgindo aos poucos, e dois piercings na orelha direita. Mas o que mais lhe chamou a atenção foram os olhos, de um tom de verde muito intenso e bonito, mas que estavam envoltos em profundas olheiras, que ganhavam ainda mais destaque graças aos cabelos pretos ondulados e bagunçados. Olhou atentamente mais um pouco para aqueles olhos, e então viu varias imagens de um garoto trancado em um quarto escuro, chorando. Afastou-se do espelho, assustado, e então ouviu alguém abrir a porta do quarto.
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Davi estava na cozinha, ajudando sua mãe a por os talheres na mesa enquanto ouvia Laura contar as empolgantes aventuras de seu primeiro ano no ensino médio. Não conseguia negar que achava muito fofa a maneira como a garota se expressava. Carina e Vanessa conversavam descontraidamente sobre as melhorias que gostariam de fazer no sítio enquanto serviam o frango assado no fogão e os acompanhamentos.
- Será que vou ter que chamar o Icaro denovo para vir almoçar?! O que ele está fazendo naquele quarto?!- Disse Vanessa, irritada com a demora do filho.
- Deixa que eu vou chamar ele, Tia. - Prontificou-se Davi, que nem aguardou a resposta para ir em direção ao quarto, onde abriu a porta e se encontrou aquele rapaz alto de olhos verdes em frente ao espelho do quarto de hóspedes com uma expressão assustada.
- Ta tudo bem? - Perguntou, preocupado e já entrando no quarto.
- Ta... Ta tudo bem. Eu... Eu só estou um pouco cansado da viagem. - Respondeu Icaro, esticando o braço como se pedindo para que o amigo não se aproximasse mais. - E, a propósito, desculpe por não ter te cumprimentado corretamente ainda a pouco. É que não te reconheci de imediato.... Você... Mudou bastante. Cresceu... - Enquanto gaguejava, o rosto do rapaz ia ficando cada vez mais corado. Davi não conseguiu resistir aquela cena.
- Relaxa. Já faz mais de um ano que não nos vemos. - Ao dizer isso ignorou o pedido do rapaz e se aproximou mais. - O importante é que você está aqui denovo. - E ao dizer isso abraçou o rapaz, mas não da mesma maneira de quando desceu do cavalo. Esse era um abraço mais carinhoso e aconchegante. Davi achou que se peito ia se partir de tão forte que o seu coração batia, e logo pensou que estava prestes a infartar ao sentir aquele rapaz timidamente retribuir-lhe o abraço.
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Icaro não sabia como lidar com aquela situação. Sofreu durantes meses com o que havia acontecido ao seu pai, semanas de terapia e notas baixas em provas, e muitas noites mal dormidas. E de repente aquele abraço parecia ser a solução para todos os seus problemas. O calor que emanava do corpo daquele homem, a respiração dele em seu pescoço, e a firmeza dos braços dele em torno dos seus o acalentavam de um modo único, e só quando começou a sentir um volume suspeito surgir em sua cintura foi que conseguiu voltar a realidade e soltar o abraço.
- Er... Minha mãe veio me chamar ainda a pouco para almoçar. - Disse Icaro, completamente envergonhado.
- É mesmo. - Respondeu Davi, piscando os olhos como se estivesse saindo de um transe. Foi por isso que vim ate até aqui. Vamos? - Disse, soltando uma risada constrangida.
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