Icaro foi guiado por Davi até a cozinha, onde sua irmã estava sentada à mesa, retirando o colar e o guardando no bolso de sua calça jeans, e sua mãe trazia uma grande jarra de suco para a mesa.
- Poxa garoto, ate que enfim! Lava as mãos ali na pia e vem almoçar. - Disse Vanessa.
- Ta bem, mãe...
O rapaz foi até a pia, onde Carina desamarrava o avental e repuxava a barra de seu vestido branco com estampa de flores, que ficara amassada por causa do avental. Davi sentou-se ao lado de Laura, que imediatamente começou a perguntar sobre cavalos. Vanessa e Carina sentaram nas pontas da mesa retangular, restando para Icaro o lugar no meio, de frente para sua irmã e o Davi.
- Carina, e como está o sítio? - Perguntou Vanessa, enquanto se servia de suco.
- Esta bem. Tivemos algumas dificuldades recentemente, mas acredito que a safra de cajus desse ano será muito boa. - Respondeu Carina, com um leve sorriso no rosto. - E também, o Davi tem me ajudado bastante desde que começou a trabalhar treinando cavalos.
- É mesmo? - Vanessa sorriu.
- Que legal! - Disse Laura, entre colheradas de arroz.
- É sim. - Respondeu Davi, demonstrando um pouco de timidez. - Eu treino os cavalos dos peões da região e os que vêm de fora, quando há cavalgadas ou outro tipo de evento.
Icaro respirou fundo ao ouvir aquilo, e lembrar-se da cena do rapaz forte descendo do cavalo e indo em sua direção. Sentiu seu rosto corar, e deu um grande gole no seu copo de suco para disfarçar.
- Mas e você, Vanessa. Como está a vida desde que... Você sabe... - Carina não quis terminar a frase.
- Bem, estamos conseguindo aguentar... - O sorriso de Vanessa foi sumindo aos poucos. - Tenho trabalhado o dia todo, felizmente uma amiga da Laura que sabe o que aconteceu à convidou para almoçar em sua casa todos os dias após a aula. E as aulas do Icaro são em período integral, e isso ajuda bastante.
- Sem dúvidas! - Falou Icaro, em tom sarcástico enquanto desviava o olhar. Detestava aquela escola.
- Então... - Vanessa olhou séria para seu filho. - Não me sobra muito tempo pra cuidar da casa durante a semana.
- Mas você está conseguindo manter a situação? E quanto ao financeiro? - Carina franziu as sobrancelhas.
- Quanto a esse ponto está sendo bem difícil. Tive que definir prioridades e cortar muitos gastos. Até coloquei a Laura em uma escola pública. Tive muito receio de que ela fosse se sentir deslocada, mas minha pequena é ótima em fazer amigos. Atualmente o que tem me preocupado mais é o preço da gasolina e o psicólogo do Icaro.
- É só parar de me levar lá! - Icaro deixou seu descontentamento bem evidente dessa vez.
- Não, Icaro! Já conversamos sobre isso. - Vanessa parecia estar começando a perder a paciência.
- Mas mãe, o cara é inútil! Só fica pedindo para eu falar como foi a minha semana e como eu tô me sentindo! E sempre que eu digo que aconteceu algo que me incomodou ele vem com "Olha, não é bem assim..." - Icaro forçou uma voz mais aguda enquanto fazia caretas em sua tentativa de imitar o psicólogo.
- Icaro, tente entender! Ele está... Nós estamos apenas tentando te ajudar. Você não tem sido o mesmo desde que... – A voz de Vanessa falhou no final da frase.
- Desde o que?! Que o papai morreu?! – A irritação de Icaro era perceptível pelo tom vermelho que tomava seu rosto, e pelas lágrimas que começavam a encher seus olhos.
- Isso. – Vanessa respirava fundo enquanto começava a falar mais devagar. Aparentemente estava tentando se manter calma para não começar a chorar. – Desde que seu pai se foi... É por isso que o levo ao psicólogo... Porque desde que seu pai se foi você tem tentado fugir da realidade...
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Davi se assustou ao ver o Icaro se levantar repentinamente, e em seguida bater as mãos com foça na mesa.
- Fugir da realidade?! É sério isso?! – Gritava Icaro, enquanto lágrimas começavam a verter por aqueles olhos verdes e intensos. – Quer dizer que acha que eu sou louco, diga logo!!
- Icaro, não é isso! Pare de gritar! – Gritou Vanessa, agora com os olhos cheios de lágrimas também.
- Você nunca tentou sequer me entender! Admita! O papai era o único que me escutava sem me olhar como se eu fosse louco!
- Icaro, chega!! – Gritou Laura, assustando todos os presentes. Só então Davi notou que o rosto da menina estava lavado em lágrimas.
O rapaz do interior viu seu amigo virar as costas e sair quase correndo da cozinha, sob os gritos de sua mãe, que o mandava ficar.
- Deixa tia, eu vou atrás dele. – Disse Davi, enquanto se levantava rapidamente para seguir o amigo, enquanto via sua mãe ir amparar a amiga.
Davi correu até a parte de fora da casa, mas Icaro não estava mais a vista. Sentia o calor da tarde aquecer sua pele, enquanto o vento balançava forte os galhos dos cajueiros que cercavam a casa. Ouviu som de passos a sua direita, e ao virar, conseguiu distinguir uma silhueta se distanciando rápido entre as árvores.
Correu na direção de seu amigo. Ficou surpreso por um rapaz da cidade como o Icaro conseguir correr mais rápido que ele, mas então viu que ele parou atrás de um dos maiores cajueiros do sítio. Em poucos segundos conseguiu alcança-lo, e o que viu causou uma dor forte no peito. Icaro estava sentado, abraçando os joelhos com a cabeça baixa, enquanto soltava alguns grunhidos inextinguíveis. Estava chorando muito.
O rapaz não sabia o que fazer naquela situação, e em seu reflexo, apenas sentou ao lado de seu amigo e pôs o braço sobre as costas dele.
- Ei...
Davi tentou falar, mas foi logo interrompido. Mal teve tempo de entender o que acontecia. Sentiu seu amigo se jogar em seu peito, enquanto os braços dele seguravam firme sua cintura. Icaro estava com a cabeça enterrada no peito dele, e logo a camisa do rapaz do campo começou a ficar molhada pelas lágrimas dele.
Ele estava tremendo.
Davi fez a única coisa em que conseguia pensar. Gentilmente passou os braços pelas costas do amigo e o abraçou firme. Ficou satisfeito ao perceber que fizera a coisa certa. Sentiu que o amigo parava de tremer aos poucos, e sua respiração estava desacelerando. Olhou para cima, para o céu azul claro com algumas poucas nuvens. Apesar de saber que seu amigo não estava bem, sentia seu coração bater forte, enão conseguia esconder a emoção de estar daquele jeito com ele.
Sabia que seu amigo não estava bem. Enquanto olhava para o céu, apenas desejava que aquele abraço nunca acabasse...
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