Gabriel ouviu passos. Alguém estava correndo sobre o gramado úmido que crescia em volta da pequena igreja. Estava vindo em sua direção. Pulou sobre a velha mesa de madeira e caiu em cima do padre, cobrindo-o no instante em que algo acertou a parede as suas costas, quebrando-a e arremessando pedaços de tijolo e cimento pelo ar. Sentiu o chão tremer, ouviu som de madeira quebrando, e seguido por um estrondo e a sensação de peso caindo em suas costas.
Levantou-se, afastando alguns estilhaços do que já fora uma parede. Olhou para baixo, e viu padre Miguel encolhido e assustado, rezando com seu rosário.
- Oh... Não sabia que o padre tinha um convidado hoje. - Pronunciou um vulto que surgia em meio a nuvem de poeira.
O missionário se virou para trás, para ver de onde veio a voz, e em meio a poeira de tijolos surgiu um homem jovem, que devido ao seu porte musculoso, acabava se tornando um pouco intimidador. Sua calça jeans e sua regata camuflada cinza, ambas um pouco justas, chamavam ainda mais a atenção aos músculos do estranho. Seus cabelos pretos e curtos eram bagunçados, e usava um tipo de luvas de meio dedo com placas de metal.
- Quem é você? - Perguntou Gabriel, enquanto saia dos escombros.
- Um herege... Um profano... Um impuro... O que preferir. - Respondeu o estranho. Sua voz era madura, embora descontraída. - E você?
- Um missionário. Mas tenho outro título, se preferir... - Disse Gabriel, respirando fundo e encarando o estranho. - O Cão de Caça.
O padre ergueu a cabeça, confuso. Viu o jovem enviado do Vaticano ao seu lado, cujas vestes estavam sujas de poeira, e o estranho a alguns passos de distância.
- Padre Miguel! - O herege demonstrava um sínico tom de empolgação, como se fossem amigos de longa data que a muito não se veem. - Que bom te ver! Olha, minhas ordens são para elimina-lo e demolir sua igreja, mas eu não quero acordar mais pessoas do que já acordei... Sem contar que deixei uma cerveja esquentando no balcão do bar, então podemos ser rápidos?
O homem deu um passo para frente, em direção ao padre, mas parou ao ver o missionário se por entre eles.
- Não ouse. - Disse, em um tom sério.
O herege sorriu, e começou a correr na direção de Gabriel, porém teve tempo de dar dois passos apenas, pois ele já estava a sua frente, acertando-lhe um soco no rosto, que o fez levantar no ar alguns centímetros, antes de cair de costas no gramado úmido. O estranho se levantou cambaleando e limpou o sangue que escorria pelo canto da sua boca.
- Você é rápido. - Disse, recuperando o sorriso.
O padre, que apenas assistia, recuou para dentro do que restou da igreja, foi em direção à janela mais próxima, e lá ficou para assistir a luta. Gabriel ergueu o braço para dar outro soco, mas dessa vez seu adversário pôs o próprio antebraço esquerdo ao lado do rosto, assim bloqueando o ataque, e com a mão direita, agarrou o missionário pelo rosto, o girou no ar e arremessou contra a parede da igreja. O impacto seria o suficiente para deixar um homem adulto desacordado por algum tempo, mas Gabriel apenas bambeou um pouco, se apoiou na parede e se levantou antes de correr em direção ao seu inimigo, o qual tentou lhe acertar um soco no rosto, mas apenas desviar a cabeça um pouco para o lado tornou seu golpe inútil, enquanto sentia um grande ardor em seu peito, seguido pela sensação de algo quente escorrer e manchar sua camiseta. O herege olhou para baixou, e viu quatro grandes cortes, como que feitos por garras, vertendo sangue em seu tórax. Olhou para os lados, a procura da besta que lhe causou tais ferimentos, e ao olhar para trás viu apenas o missionário vir com a mão aberta em sua direção. Conseguiu desviar um pouco para o lado, mas apenas o suficiente para que o golpe acertasse seu ombro direito em vez de acertar seu peito novamente. O estranho recuou alguns passos, olhou para seu atacante, e notou algo que lhe chamou a atenção: a íris de seus olhos estavam amarelas.
- Você disse que suas ordens eram para destruir a igreja. - Disse Gabriel, em tom sério. - Ordens de quem?
- Você vai saber logo, seu putinho da igreja! - Respondeu o homem, enquanto colocava a mão esquerda sobre o ferimento em seu ombro. A expressão em seu rosto era de dor.
- Do que me chamou?!
- De putinho da igreja! Viadinho dos padres! - O estranho oscilava entre a raiva e o deboche.
O missionário avançou na direção do homem. Rápido, acertou um soco em seu estomago que fez seu adversário se curvar para a frente. O estranho viu seu atacante sumir ante seus olhos, e seu lugar foi ocupado pelo sangue qie escorreu dos cortes que surgiram em sua barriga. Sentiu mais cortes serem abertos em suas costas, seguidos pela mesma sensação de ardência. Seus ferimentos doíam muito mais do que simples cortes deveriam doer, e somado ao golpe que recebeu em sua barriga, caiu de joelhos e tombou para o lado. Sentiu uma mão segurar firme sua cabeça, ergue-la, e um soco em seu rosto fez com que abandonasse a realidade.
O sol brilhava forte, dando as folhas das árvores um tom verde intenso, especialmente a uma pitangueira que crescia timidamente em frente à Grazia di Frumento, uma padaria e pizzaria cujo dono era de origem italiana. A pitangueira dava ao local um ar mais tradicionalista, especialmente pelos pequenos frutos avermelhados que coloriam a calçada de pedras cinza e ressaltavam os tons avermelhados da fachada do estabelecimento. Sob a sombra da árvore, um rapaz dormia profundamente. Usava roupas brancas, uma calça e uma camiseta, sujas como seu rosto, de pele clara. Seus cabelos pretos estavam bagunçados, e os pés estavam descalços, mas nada disso parecia importar enquanto o jovem aproveitava seu travesseiro de raiz de pitangueira e terra. As pessoas que passavam em frente ao Grazia ignoravam o garoto, ou o olhavam com ar de desprezo.
- Papai! Papai! Um mendigo! - Disse uma menininha em trajes escolares, que por ali passava de mãos dadas com um homem de ar severo.
- Vamos Clara. Não olhe. - Respondeu o homem a menina.
- Devíamos ajudar ele.
- Deus vai ajuda-lo. Agora, vamos. Sua mãe deve ter feito bolo de laranja para o lanche.
- Bolo de laranja! Bolo de laranja! - Clara cantarolava, enquanto era guiada por seu pai para longe do rapaz.
Dentro da padaria, um homem gordo em um uniforme de cozinheiro trazia uma grande cesta cheia de pães que acabaram de sair do forno, espalhando o aroma caloroso de massa e fermento por todo o ambiente, e do lado de fora. O cheiro fez o rapaz acordar. Na padaria estava um casal de mulheres que constantemente trocavam olhares enquanto comiam fatias de uma torta de morango, uma mãe com seus dois filhos pequenos, que brincavam com bonequinhos de astronautas e cowboys, e um homem misterioso com um sobretudo tão preto quanto seus cabelos, que eram curtos e arrumados. O homem observava admirado toda a extensão do local, com seu piso, cadeiras e mesas de madeira, paredes brancas com fotos em preto e branco de pontos turísticos da Itália, e estantes abarrotadas de uma grande diversidade de pães, bolos, biscoitos, queijos e demais frios de todos os tipos e tamanhos, e um balcão sobre um tipo de freezer onde diversas tortas doces estavam enfileiradas. Atrás do balcão o senhor gordo brincava com a ponta de seu bigode e o dedo indicador. O homem de sobretudo acabou de beber seu café, se levantou, e andou em direção ao balcão.
- Foram dois sanduíches de frango e uma xícara de café. - Disse ao senhor gordo.
- Certo. São doze reais. - Respondeu, de maneira simpática, sem esconder o sotaque italiano, enquanto recolhia o dinheiro que seu cliente entregava.
- Grazie. É una bella panetteria. - Disse o homem de preto.
- Oh, prego! - Falou o senhor gordo, que ficou feliz em ouvir uma resposta em italiano, ainda mais sendo um elogio. - Te è italiano? - Perguntou, curioso.
- No. Sono del Vaticano. - Respondeu o homem.
- Ah, capisco... Bene, grazie. E Buon pomeriggio. - Disse o senhor bigode, se virando para atender a mãe dos meninos, que veio pagar pelo lanche deles.
- Buon Pomeriggio. - Respondeu o homem, antes de sair da padaria.
Ao sair do estabelecimento viu o garoto sujo em roupas rasgadas sentado sob a pitangueira. Ele esfregava a barriga com as mãos e se curvava. Estava faminto. O homem se virou e entrou na padaria, poucos segundos depois, voltou com dois sanduíches embrulhados em guardanapo, ajoelhou-se em frente ao rapaz e lhe estendeu a mão em que segurava a comida. O garoto olhou para frente, atraído pelo delicioso cheiro de comida, e sem pensar duas vezes, agarrou os sanduíches e os devorou ferozmente. Enquanto comia, olhou para frente, para tentar ver seu bem-feitor, e o que pode ver foi um homem em roupas pretas, e olhos de um tom castanho intenso, que estendeu a mão, afagou os cabelos do garoto, se levantou e foi embora. O rapaz se virou para ver o homem partir. Não sabia se anjos existiam, mas se existirem, sem dúvidas ele seria um.
- Deve estar envenenado. - O rapaz ouviu sussurrarem em seu ouvido.
- É delicioso. - Respondeu, com a boca cheia de pão e creme de frango.
- Então é um veneno delicioso. - Ouviu novamente o sussurro traiçoeiro.
- Não é veneno. É um presente do anjo de preto. - O rapaz cuspiu alguns farelos enquanto tentava falar.
- Você o conhece?
- Não.
- Então, como sabe que não está envenenado?
- Não tá.
- Esta bem. - Ouviu o sussurro quando acabou de comer. O rapaz se levantou, sentindo-se mais forte depois de matar sua fome.
- Onde você vai? - Ouviu outro sussurro.
- Não sei. Para algum lugar.
- Que lugar?
- Qualquer lugar. - Disse o garoto que, sozinho, desceu a rua a pé.
Gabriel andou um pouco sob o calor do sol da tarde, ainda com a imagem do rapaz sujo da padaria em sua mente, quando enfim chegou aquela casa verde musgo castigada pelo tempo. Abriu a porta de madeira escura e entrou, passou pela sala, cuja lâmpada estava acesa, e foi em direção a escadaria que dava acesso ao andar de cima, mas entrou pela porta que estava embaixo da escada e desceu para um porão escuro, impregnado pelo cheiro de mofo, cujo teto estava coberto por um véu de teias de aranha. Ao final da pequena escada empoeirada estava uma velha estante, onde Gabriel pegou uma vela e a acendeu com o ultimo palito de uma caixa de fósforos que ali ficara. Caminhou em meio à escuridão com a vela em sua mão, até encontrar outras, distribuídas pelo local, e as acendeu. Havia uma pequena janela gradeada em uma parede, e a pouca luz que por ela entrava revelou um homem forte acorrentado a parede do local, que era feita de pedra. Estava sentado, curvado para frente, apenas com uma cueca boxer azul. Gabriel conseguia ouvir sua respiração, se perguntando por quanto tempo mais ele permaneceria desacordado. Aproximou-se, e então o prisioneiro tentou avançar, mas foi detido pelas correntes, que logo em seguida liberaram uma descarga elétrica que fez o homem gritar.
- É inútil. - Disse Gabriel, quase em tom de deboche, enquanto seu prisioneiro caia de joelhos. - Esta com fome?
- Sim... - Respondeu o prisioneiro, tendo um pouco de dificuldade para falar depois da forte choque elétrico. - E dor de cabeça...
O homem levantou o rosto para olhar seu carcereiro. O que viu foi um rosto bonito, apesar do semblante sério, com olhos castanhos intensos e cabelos pretos curtos. E então o prisioneiro abaixou a cabeça, viu três cortes alinhados em seu ombro, quatro em sua barriga, quatro atravessando seu abdômen e seu peito na diagonal, e pode sentir outros quatro cortes semelhantes em suas costas. Aqueles ferimentos mais pareciam ter sido feitos pelas garras de algum animal.
- Você é forte. Pra ter conseguido me fazer esse estrago todo... E ainda estou sentindo dor...
O homem olhou novamente para Gabriel, revelando-o seus belos olhos cinza-metálicos, cabelos pretos curtos e bagunçados, e um rosto jovem que junto ao seu porte musculoso o tornavam bem atraente.
- Não se trata de força, mas de intoxicação. Minhas garras causam dor ao tocar o sangue. - Respondeu Gabriel.
- Você é... Um lobisomem? - Perguntou o prisioneiro, franzindo a testa.
- Sim.
O prisioneiro começou a rir.
- A igreja... - Tentava falar em meio às gargalhadas. - A igreja usa um... Um lob... Lobisomem como missionário?! Sério?! É muita hipocrisia!
Enquanto as gargalhadas ecoavam pelo porão escuro, Gabriel foi em direção a um baú empoeirado, e puxou uma cadeira que estava do lado. Sentou-se, e aguardou a crise de risos acabar, o que não demorou muito para acontecer.
- Minha cabeça... - Disse o prisioneiro, sentindo novamente as fortes dores. - Eu já ouvi boatos sobre você, Cão de Caça, mas sempre achei que fosse algum tipo de brincadeira. Um lobisomem que serve a igreja. O cão de caça de Cristo.
- Exato... E você é?
- Já disse! Um herege! Não tem porque você saber meu nome!
- Ontem à noite, você disse que suas ordens eram para destruir aquela igreja. Quem lhe deu essas ordens?
- Não prefere me dar outro soco e me derrubar denovo? - Disse o homem, em tom irônico. - Que sede...
- Quer água?
- Prefiro vodka, mas você não deve ter...
- Não devia beber, sendo tão jovem...
- Não venha querer me dar lição de moral, padre! Ai... - O homem abaixou a cabeça, sentindo dor devido a seus gritos.
- Não sou um padre. Sou um servo. - Disse Gabriel, enquanto se levantava e pegava uma garrafa de água que estava na estante empoeirada. Abriu, e levou a garrafa à boca de seu prisioneiro.
- Vai me dar na boquinha, padre? - Perguntou o homem, mordendo o lábio inferior.
- Se quiser beber ou não, não vai fazer diferença para mim. Só para você. - Respondeu, em tom ríspido, apesar de ter ficado corado com a pergunta.
O homem aceitou a água, e em poucos goles bebeu tudo que estava na garrafa. Manteve o olhar fixo em seu captor.
- Você é bonito. - Disse o herege, após beber a água. Uma gota escorria pelo canto de sua boca.
- Obrigado. - Disse Gabriel. - Agora me diga quem lhe deu a ordem.
O herege abaixou a cabeça e respirou fundo.
- Esta bem. - Disse o herege. - Chegue mais perto, só posso falar baixo sobre isso.
Gabriel se aproximou do homem, curvando-se para ouvir o que ele fosse lhe dizer, mas o homem levantou a cabeça rápido, e o surpreendeu com um beijo, que foi seguido de um soco de seu captor, que bambeou nos passos que deu para trás, antes de sair do porão furioso com o que acabara de acontecer, e com as novas gargalhadas de seu prisioneiro.
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