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I - O missionário

Estava escuro. Sentiu seu corpo deitado em algo macio. O brilho do sol ao fim do entardecer entrava por uma brecha nas cortinas da janela do quarto, atravessava suas pálpebras, e isso o fizera acordar. Virou-se para o outro lado, abriu os olhos e pegou o celular que repousava ao seu lado na cama. O relógio do aparelho mostrava ser cinco horas da tarde. Amaldiçoou-se por não ter passado a cortina por toda a janela, e em seguida sentou. Espreguiçou-se e após se amaldiçoar um pouco mais, levantou, atravessou o quarto e foi rumo ao banheiro. Parou em frente ao espelho e por alguns minutos encarou aquele rosto moreno com a barba por fazer, cabelos pretos um pouco longos e bagunçados, e olhos castanhos que o encaravam tão fixamente. Abaixou o rosto, lavou-o na pia e o levantou novamente. Pegou o alicate que estava sobre a caixa de descarga do vaso sanitário ao seu lado e abriu a boca, assim revelando longos e afiados caninos. Odiava o que estava prestes a fazer, porém enquanto estivesse em missão não poderia se dar ao luxo de permitir que os humanos notassem seus dentes. Fechou os olhos, respirou fundo, e então começou a quebrar e extrair os caninos.


     A lua já brilhava no céu. Era por volta das oito horas da noite, e algumas ruas ainda estavam congestionadas. Empregados se despediam de seus patrões, pessoas andavam pelas ruas, seguindo suas vidas. Aquele fora mais um dia monótono, pelo menos para a maioria das pessoas. Afastado do centro urbano, com uma pintura verde musgo envelhecida pelo tempo e pelo clima, estava uma pequena residência, de onde aquele homem de pele morena e barba por fazer observava o congestionamento à frente de sua janela. Virou suas costas para aquela realidade, caminhou pela cozinha, subiu uma curta escada de madeira e foi em direção ao quarto, onde sobre uma cama de casal se encontrava um celular moderno. O homem o pegou e o pôs para tocar suas músicas favoritas. Pegou então um envelope de papel pardo que estava na pequena cômoda ao lado da cama, abriu, retirou os papeis que ali estavam e começou a ler. 

A noite seguia agitada para alguns, e tranquila para outros. A medida que as horas passavam a quantidade de pessoas pelas ruas diminuía, até que só restavam alguns poucos adolescentes despreocupados que andavam em grupos conversando sobre seus dramas amorosos e como eram rejeitados por suas famílias. Já era por volta das onze horas da noite quando o portão gradeado da casa verde foi aberto pelo homem alto, que trajava um longo sobretudo preto. Fechou o portão e começou a caminhar. 

Olhou para o céu e viu que estava nublado. Agradeceu aos céus por sua sorte e então acelerou o passo. Sentia o vento frio mexer seus cabelos. Passou por um bar onde alguns homens velhos bebiam cerveja, conversavam, e assistiam ao final de jogo de futebol por uma televisão presa na parede do bar, ao lado das geladeiras. Mais a frente, ao final da rua, conseguia avistar uma igreja. E a medida que se aproximava pode vê-la melhor. Era uma construção antiga, porém bem conservada. Uma igreja católica, envolta por uma cerca de ferro. Através de seus grandes vidrais embaçados pelo frio, era possível ver o brilho das velas que ainda queimavam lá dentro. O homem chegou ao portão da cerca, em forma de arco, que devia ter por volta de dois metros. Focou acima, mirou o topo do portão, e em um pulo passou por cima dele. Deu alguns passos e então chegou aos portões da igreja. Eram feitos de madeira pesada, ornamentada com linhas espirais que formavam desenhos abstratos. 

O homem bateu o portão direito e então ouviu passos dentro da edificação. Os passos se aproximaram e em seguida a fechadura foi destrancada. A porta foi aberta por um homem em trajes um tanto formais. Usava uma calça e uma camisa social preta com um “colarinho” branco, e seu cabelo preto liso dava destaque aos seus olhos castanhos.

- Sua benção, Padre Miguel. – Disse o homem misterioso se ajoelhando, pegando a mão direita do padre e beijando-a.

- Que Deus lhe abençoe. – Respondeu. – Entre logo, por favor. – Sua voz demonstrava preocupação.

- Claro. – Falou o homem, enquanto se levantava e entrava na igreja.

O padre fechou a porta de madeira e indicou ao visitante para que o seguisse. Atravessaram a igreja, a qual era repleta de longos bancos de madeira enfileirados no meio da edificação, o que só tornava possível a passagem pelas laterais. Havia candelabros nas paredes entre cada vidral. E mais a frente, ao fim da sequência de bancos, um altar com uma grande mesa de madeira coberta por um tecido branco, com uma grande bíblia aberta no centro, e na parede uma estatueta de um homem crucificado. 

O padre e seu visitante passaram pela direita, seguiram em frente, até uma pequena porta no canto da parede. O padre a abriu e gesticulou para que seu convidado o seguisse. Entraram, e agora estavam em uma pequena sala nos fundos da igreja, iluminada por uma lâmpada velha. Ali havia apenas uma pequena mesa, duas cadeiras, uma geladeira e um armário empoeirado. O homem de preto puxou uma cadeira e nela se sentou, enquanto seu anfitrião foi em direção à geladeira, abriu, e de lá tirou uma garrafa de vidro verde-escuro. Tirou dois copos da geladeira, pôs um a frente de seu convidado, e o encheu com uma bebida violeta. O homem de preto pegou o copo e bebeu um gole, enquanto o outro se servia, puxava a outra cadeira para si e se sentava.

- Então, você é o "missionário" que o Vaticano disse que iria enviar? – Perguntou o padre, que apesar de jovem, tinha uma aparência cansada e castigada pela vida.

- Sim. – Respondeu o homem. – Sou Gabriel. Fui enviado para investigar os "acidentes" que ocorreram região.

- Gabriel... Assim como o anjo... Diga-me, é assim que eles estão tratando? Acidentes?

- Suspeitamos que as igrejas tenham sido demolidas. Mas ainda não sabem por quem... Ou porque...

- Pois bem, vou lhe contar o que sei. Não foram acidentes. A duas semanas, Padre Bernan me ligou. Estava preocupado e pediu para que eu o encontrasse na igreja do centro da cidade, mas quando eu cheguei lá, não havia mais igreja nenhuma. Só um monte de entulho. Padre Bernan disse que aquilo tinha acontecido durante a noite. Estava preocupado. Na semana seguinte, eu decidi ir visita-lo, mas ele não estava em casa. Fui até a igreja que estava sob seus cuidados, e ao chegar lá encontrei apenas um monte de entulho... E padre Bernan estava lá... Enterrado por uma parede. – Disse o padre, dando um gole em seu copo de bebida. Estava aflito.

- Sinto muito. – Disse Gabriel, apenas olhando para seu copo.

- Sabíamos que disseminar a palavra de Deus teria seus riscos... Mas nunca imaginei algo assim... Aquilo não foi um acidente. Foi intencional.

- E o senhor tem alguma suspeita de qiem teria, ou teriam sido os responsáveis? – Gabriel olhou fixamente nos olhos do padre.

- Padre Bernan e eu ouvimos boatos sobre grupos de jovens rebeldes que estavam pixando blasfêmias em alguns muros pela cidade... Suspeitávamos dos Filhos de Cain...

     Gabriel sentiu sua respiração travar, e então ouviu passos. Alguém estava correndo sobre o gramado úmido que crescia em volta da pequena igreja. Sabia que estava vindo em sua direção.  


     Enquanto isso, um garoto magro e pálido caminhava sozinho pelo centro de uma cidade adormecida. A luz dos postes guiava seus passos, e o som dos poucos carros que ainda se deslocavam pelo asfalto era o que mantinham o rapaz acordado. Mas isso não foi o bastante ante a sua fraqueza e a sua fome, que o venceram, e o fizeram cair embaixo de uma árvore. Olhou para cima, e entre o brilho das lâmpadas dos postes e as folhas da árvore, pode ver um céu nublado. "Será que vai chover?" foi seu último pensamento, antes de mergulhar na escuridão da exaustão e do sono. 


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