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I - Chegada

Sentia o vento morno da manhã afagar seus cabelos enquanto cavalgava pelo extenso campo de grama alta e árvores dispersas, com o coração quase tão acelerado quanto o do cavalo que o levava veloz através do campo. Em sua vistoria rotineira pelo terreno de sua família, acabara perdendo a noção do tempo, e agora corria, alimentando a esperança de conseguir ver a chegada daquela pessoa. A última vez que se sentiu tão empolgado fora a dois anos, quando viu aqueles olhos verdes pela ultima vez.

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Despertou ao sentir que o carro parara de se mover. Abriu os olhos, protegidos pelos óculos escuros de estilo aviador, e viu ao seu lado sua irmã falar, com um largo sorriso no rosto. Entretanto nada entendia, e nem fazia muita questão de entender, enquanto o único som que chegava a seus ouvidos eram as músicas do novo álbum de uma de suas bandas de metal favoritas. Olhou para o banco da frente, e viu sua mãe encara-lo com uma expressão séria enquanto mexia a boca, e então percebeu que estava falando com ele.

- Entendeu, Icaro? - Foi o que o jovem ouviu quando tirou os fones.

- O quê? - Perguntou o rapaz chamado Icaro.

- Céus garoto, da pra prestar atenção no que eu digo pelo menos uma vez na vida?! - Questionou a mãe, demonstrando irritação. - Eu disse para você ter cuidado, pois sua tia falou que tem visto muitas cobras por aqui nos últimos dias! Cuidado aonde pisa!

- Tá, mãe... - Respondeu o rapaz, com claro desinteresse. Na verdade, encarava a possibilidade de ser envenenado por uma cobra como um favor que o réptil o faria.

Saíram do carro, e foram logo recepcionados por uma mulher que aparentava ter por volta dos 40 anos, apesar do belo e jovial sorriso em seu rosto. 

- Vanessa, a quanto tempo! Achei que haviam se perdido. - Disse a mulher para a mãe de Icaro, rindo enquanto a abraçava.

- Carina, desculpe a demora. É que eu tive que parar para reabastecer. - Respondeu a mãe do rapaz, enquanto sorria e retribuía o abraço da amiga.

- Tia Carina! - Disse a irmã de Icaro, enquanto corria para abraçar a mulher chamada Carina.

- Oh Laura, como você cresceu! Esta quase da mesma altura que a sua mãe. - Disse Carina, abraçando a moça enquanto seu sorriso parecia aumentar cada vez mais. Logo em seguida virou-se para o rapaz. - Nossa, como você ficou bonit....

- ICAROOO!! - O grito, seguido do som do trotar de um cavalo fez todos se silenciarem, enquanto se aproximava a cavalo um rapaz forte e moreno, que usava uma camisa quadriculada com uma calça jeans rasgada no joelho direito e um chapéu de cowboy.

Aquela cena surpreendeu a todos, principalmente a Icaro, cuja expressão deixou que seus óculos caíssem para a ponta de seu nariz, revelando belos olhos verde-claro.

- Eita garotão! - Disse o rapaz, descendo do cavalo com um enorme sorriso no rosto, enquanto abria os braços em direção ao Icaro, ainda surpreso. - Há quanto tempo!

Icaro sentiu aquele rapaz grande o abraçar forte, ainda sem acreditar que ele fosse quem suspeitava ser. E em sua confusão mental, conseguiu apenas responder com um abraço trêmulo, que foi logo interrompido pela mulher chamada Carina.

- Oh céus, Davi! O que estava tentando fazer?! Nos matar de susto?! - Dizia a mulher, enquanto encerravam o abraço. - Vamos, ajude Vanessa e as crianças a tirar as malas do carro. Vou ver se o assado esta pronto.

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Davi viu sua mãe se virar e entrar, e então foi até o carro vermelho o qual Vanessa já abria a parte traseira e começava a tirar algumas bagagens. Vanessa entregou uma mochila branca com listras azuis e rosa para Laura, e outra preta para Icaro. Davi se prontificou e pegou as outras duas malas grandes que ainda estavam no carro, e guiou os convidados em direção a porta de entrada de sua casa. Não conseguia acreditar em como seu amigo crescera, se tornando um jovem alto e bonito, apesar dos cabelos escuros estarem um pouco mais longos, e bagunçados como sempre. De repente já se sentia como uma criança que recebe o que pediu de presente de Natal. Se bem que, nos dois últimos anos, seus pedidos de Natal realmente foram poder estar denovo com aquele rapaz.

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Os convidados foram guiados pelo corretor daquele casarão por Davi, que contava maneira bem entusiasmada as expectativas para a safra de cajus daquele ano. Vanessa e Laura foram acomodadas em um quarto grande com duas camas de solteiro, e Icaro foi levado a um quarto menor, que no qual havia apenas uma cama de solteiro com uma cômoda ao lado. Davi se ofereceu para ajuda-lo a desfazer sua mala, mas logo em seguida foi chamado por sua mãe a cozinha, onde fazia os últimos preparativos para o almoço. O rapaz de olhos verdes sentou-se na cama, retirando de vez os óculos e os soltando sobre o travesseiro. Não conseguia aceitar que aquele homem forte, moreno, de olhos castanhos e sorriso largo fosse o menino medroso e magrelo com quem costumava brincar durante as férias. Jogou-se na cama, com os braços abertos, e uma forte sensação de saudade apertou seu peito. Sentimentos mistos começavam a lhe tomar, pois lembrou-se do rosto jovial de um homem de olhos verdes, e logo essa lembrança deu lugar a imagem de um quarto de hospital, onde esse homem repousava com o olhar fixo no teto, os olhos verdes já sem o mesmo brilho jovial. Pensou que a dor daquela visão iria rasga-lo ao meio, e então virou-se para o lado. Conseguiu se acalmar, pois a memória de outro sorriso, mais recente, tomou seus pensamentos.

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