- Não, espera!!
Uma faca. Um passo para o lado. Sentiu o sangue quente escorrer por seu rosto, entrando em sua boca.
- Rápido, ajuda aqui! Ele está sangrando! - Gritou um homem loiro. Não conseguia ver quem era. Sua visão estava turva, e o mundo parecia estar girando. - Vai ficar tudo bem...
Acordou em um sobressalto, arfando e suando frio. Seus olhos estudaram o cenário ao redor rapidamente. Estava escuro. Era madrugada. A luz amarela dos postes clareava um pouco o cenário, permitindo-o ver o armário do outro lado do quarto, e na parede ao lado um espelho e uma cômoda com algumas gavetas semiabertas. Estava em seu quarto. Ouviu um som de respiração funda ao seu lado. Um homem de aproximadamente 30 anos dividia a cama com ele. Diego, um gerente de loja de roupas do mesmo shopping em que trabalhava. Começaram a conversar pelo Lollp a pouco mais de uma semana. Alguns encontros as escondidas pela área dos funcionários do shopping durante os intervalos, e enfim Zack decidiu dar uma chance a ele. Não tinha do que reclamar. Diego sabia usar bem o corpo, fazendo os movimentos certos para conseguir tirar vários gemidos do tatuador. As curvas de seu corpo definido, e sua pele escura, se misturavam bem a penumbra do quarto, quase como se ele já fizesse parte do cômodo, tal qual a mobília. Se levantou, e andou até a janela. Se apoiou, sentindo a brisa fria da noite percorrer todo o seu corpo. Fora essa brisa que o fizera adquirir o hábito de dormir sem roupas. O toque gélido da noite o trazia uma sensação de conforto. Porém de nada valia todo aquele conforto se não podia ter uma noite de descanso. Abriu uma das portas do armário, do qual tirou uma carteira de cigarros e um isqueiro. Acendeu um. Tragou. Respirou fundo. Detestava acordar todas as noites com essas lembranças, talvez até mais do que detestava o gosto que o cigarro deixava em sua boca. Entretanto, nos últimos 5 anos, nenhum tratamento ou remédio o fizera relaxar tanto quanto a nicotina fazia. Procurou ao lado da cama a garrafa de vinho presenteada por seu acompanhante, e a encontrou. Aberta, pela metade, e quente, mas ainda assim serviria para amenizar o gosto do cigarro. Deu um gole, e deixou a garrafa em pé ao seu lado na janela. O cenário noturno da cidade lhe dava uma sensação de calma. Acreditava que esse sentimento era o mais próximo que conseguia chegar da tal "paz interior", à qual se referiam os livros de autoajuda doados a ele. Tragou o cigarro novamente. Pelo canto do olho, notou uma fraca luz piscar. Era a luz de notificação do seu celular, que estava largado no chão. Pegou o aparelho. Algumas notificações usuais do Instagram, e-mails de propagandas, um alerta de um clipe novo de uma de suas bandas de Heavy Metal favoritas, e uma notificação do Lollp. Imaginou que fosse algum novo pedido de fotos íntimas, ou um convite de alguém desesperado por sexo naquela madrugada. Mas não era. Era uma nova mensagem de sua amizade recém-feita, se é que se pode chamar isso de amizade.
"Não, ainda não sei qual curso quero fazer."
Zack riu baixinho ao ler aquela mensagem. Supôs que esse tal de "Serpente Marinha" devia ser um garoto menor de idade, ou algum tipo de idiota. Começaram a trocar mensagens o início da noite. O desconhecido o perguntou se trabalhava, e o tatuador respondeu que "era um artista". Todas as vezes que falou para alguém do Lollp que era tatuador, a conversa mudava instantaneamente para pedidos de desconto em tatuagens, ou ofertas de favores sexuais como forma de pagamento. Odiava aquilo. Se questionava se essas pessoas eram mesmo idiotas o bastante para achar que sexo pagava contas, colocava comida na geladeira, ou podia ser usado como moeda de troca para abastecer a tinta gasta em uma tatuagem. Após responder a mensagem do Serpente Marinha, perguntou o que ele fazia. Se trabalhava. A resposta dele foi que está se preparando para prestar vestibular. E, ao questionar qual carreira o estranho pretendia seguir, recebera aquela resposta. Zack tragou o cigarro outra vez, e digitou uma mensagem para seu correspondente.
"Se não sabe o que quer, então pra que se preparar para prestar vestibular?! É apenas perda de tempo. Um esforço desnecessário."
Releu aquela mensagem. Se questionou se não estaria sendo muito grosso com aquela pessoa.
- Calma Abel... Ele não tem culpa dos seus problemas... - Disse para si mesmo.
Assustou-se ao ouvir um som de grito agudo na rua, abaixo de sua janela, e deixou o celular cair, batendo no seu pé e em seguida caindo no chão do quarto. Olhou para baixo, alarmado, e viu dois gatos ariscos correrem rua abaixo. Acalmou-se, riu, e tomou outro gole de vinho. Abaixou-se para pegar o celular, e viu que a queda fizera o aparelho enviar a mensagem.
- O que?! Merda! - Reclamou baixo, lembrando-se que um dos maiores problemas do Lollp era a impossibilidade de cancelar o envio de mensagens, ou deletá-las, para evitar que o outro leia.
Observou por alguns segundos aquela conversa, como se no fundo esperasse ver uma resposta do Serpente Marinha. Mas então pensou o quão tolo estava sendo naquele momento. Era óbvio que ele estava dormindo. Só iria ler a mensagem pela manhã, quando acordasse. Além do mais, que mal havia naquela mensagem? Era apenas a verdade. Para quê dedicar um ano de sua vida se preparando para ingressar em uma faculdade sem nem saber qual curso fazer? O que poderia vir disso seria mais uma pessoa com um "diploma de enfeite". Ele mesmo não chegou a concluir seu curso superior, e mesmo assim estava conseguindo viver. Tinha uma casa, comida na geladeira e condição de pagar as próprias contas. Continuou a fumar, olhando para o céu escuro e as poucas estrelas que nele brilhavam.
- Quem se importa com o que uma Serpente Marinha pensa...
Relações sociais nunca foram o ponto forte de Zack. Vivia sozinho desde os 19 anos. Deixara de confiar nas pessoas aos 22 anos. Passou 2 anos praticamente trancado em casa, e só aos 24 anos conseguiu voltar a interagir com a sociedade, após muitos esforços de Marcos. Sem dúvidas aquele homem é alguém que poderia chamar de "melhor amigo", pois nunca desistira dele, mesmo quando a família e outros amigos desistiram. Com a ajuda dele, conseguiu voltar a trabalhar. Porém ainda carregava um sentimento de vazio no peito. Uma carência. E encontrou no Lollp um meio de saciar temporariamente esse desejo. Tinha sexo, encontros, e demonstrações de afeto quando queria, embora não se sentisse seguro o bastante para confiar em qualquer uma daquelas pessoas para algo além daquilo. A verdade é que se sentia incapaz de confiar plenamente em alguém outra vez. E isso lhe causava dor.
Zack acordou com o som de água corrente. Sua cabeça doía. Não lembrava que horas havia ido dormir. Lembrava apenas de te-lo feito após esvaziar a garrafa de vinho. Estava sozinho na cama. Pegou seu celular para olhar a hora, porém uma notificação do Lollp chamou mais sua atenção.
- Que bom que acordou. Bom dia. - Ouviu, sentindo em seguida gotas de água fria caírem sobre seu rosto. - Tentei te acordar, mas você tava roncando. - Disse Diego, curvado e molhado, encarando-o de cima. - Então achei melhor te acordar depois do banho. - O homem se abaixou para beijar Zack, que virou o rosto para o lado, deixando a bochecha exposta para a demonstração de carinho.
O convidado de Zack começou então a procurar suas roupas, porém o homem não deu atenção. Lia atentamente a mensagem que recebera de resposta do seu "amigo virtual".
"'Alice perguntou: Gato Cheshire... Pode me dizer qual o caminho que eu devo tomar?
Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. – disse o Gato.
Eu não sei para onde ir! – disse Alice.
Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.'
CARROLL, Lewis. - Alice no País das Maravilhas
Acho que você tem razão... A verdade é que eu não quero o que meus pais querem pra mim. Desde criança, sempre disseram que eu tinha que seguir a tradição da família: medicina ou direito. E eu não sei o que fazer quanto a isso... Não sei como falar com eles sobre isso..."
Foi obrigado a admitir para si mesmo: aquela pessoa, quem quer que fosse, e onde quer que estivesse, agora tinha sua atenção. Não só fora capaz de transformar um momento de grosseira em uma lição de vida, como mostrara a Zack que não era assim tão superficial quando o homem deduzira.
- Você vai sair agora? - Ouviu uma voz distante perguntar.
- Oi? - Zack respondeu instintivamente, voltando a realidade.
- Perguntei se você vai pro trabalho agora. Porque poderíamos ir juntos... - Disse Diego, do outro lado do quarto, terminando de se vestir.
- Ah... Não. Não vou agora. Não to me sentindo muito bem. - Mentiu. - Acho que foi o hambúrguer de ontem. A carne devia estar mal passada. - Riu de leve, para tentar descontrair. Havia lido em algum lugar que fazer as pessoas rirem ao contar uma mentira as tornava mais propensas a acreditar na mentira. - Pode ir na frente.
- Tudo bem. - Disse Diego, olhando para os lados, ligeiramente desconcertado. - Melhoras. Se precisar de algo, é só falar.
- Certo. Obrigado. - Respondeu Zack, já com o olhar focado na tela do celular novamente.
Pode escutar o som da porta batendo ao fundo. Agora que ele havia saído, podia se focar por completo naquela pessoa. Serpente marinha... Quem seria esse? Não havia fotos dessa pessoa em seu perfil, indicando que tinha a intenção de manter sua identidade oculta. Mas por que? Seria algum tipo de pervertido mentindo a idade? Um homem casado, pai de família, que gostava de transar com outros homens de forma sigilosa? Não... Esse tipo de pessoa não costuma ser tão profunda. A imagem de perfil era de um tipo de monstro azul, como uma cobra grotesca, com uma boca enorme aberta. Um monstro em forma de serpente... Seria algum tipo de referência ao tamanho do pênis desse desconhecido? Sendo assim, a enorme boca aberta da criatura indicaria alguma preferência a sexo oral? Não. Se essa pessoa tivesse adicionado essa imagem carregando tais significados, não teria sido tão cortês ao iniciar a conversa, e certamente já teria demonstrado interesse em transar com ele. Seja quem for, o tal Serpente Marinha queria conhece-lo. Conversar com ele. Talvez quisesse sim fazer sexo com ele, mas certamente não era essa a prioridade.
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