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2. Primeira tatuagem

Acordei com uma música muito familiar.

"Umpah, umpah, umpah, umpah."

Me espreguicei. Como o calor do cobertor é gostoso.

"Umpah, umpah, umpah, umpah."

- Arthur, levanta! - Gritou a minha mãe, batendo na porta do quarto.

"Here we go now! Umpah-pah, uh yeah, uh yeah!"

- Já vou! - Gritei de volta. Lá vamos nós.

Desliguei o despertador do celular, tirei a primeira selfie do dia e atualizei o story do Instagram. Pulei pra fora da cama e já fui logo tomar banho. Vesti o uniforme do colégio e desci pra cozinha.

- Vam'bora, garoto! Tenho que chegar cedo hoje! - Disse minha mãe, enquanto eu entrava no cômodo.

- Bom dia, Sra. - Respondi, sorrindo.

- Bom dia, meu filho. - Consegui acalma-la com um beijo na testa. - O café-da-manhã já pronto.

- Cadê a Azaleia? - Perguntei ao me sentar à mesa e não notar a presença da nossa empregada.

- Ela foi ao mercado.

- E o papai volta quando mesmo?

- No final de semana, quando acabar o congresso de neurociência.

- E o cartão?

- Meu filho... - Minha mãe respirou fundo antes de virar pra mim. - Você tem certeza disso?

- Tenho sim. Por favor... - Forcei a melhor imitação de olhar de cachorro carente que o sono permitia.

- Tá certo. Pode pegar na minha bolsa. Mas só uma, ouviu?

- Sim, senhora.

Fiz minha refeição, peguei o cartão na bolsa da minha e aproveitei pra tirar a segunda selfie do dia, segurando o cartão e com a introdução de uma música do Twice:

"Hey boy. Look, i'm gonna make this simple for you. You got two choices. Yes or yes?"

Subi pra escovar meus dentes e pegar minha mochila antes que a minha mãe começasse a gritar denovo. Aproveitei pra me olhar no espelho. É, não sou exatamente um colírio, mas também não sou feio. Porém preciso mudar meu cabelo urgente. Esse loiro tá me cansando já. Desci, e encontrei minha mãe bufando na sala. Ela sabe que eu nunca consigo me arrumar rápido pra sair de casa. Entramos no carro dela. Nos despedimos quando ela estacionou em frente ao colégio. Não precisei nem fingir entrar. Ela saiu tão apressada que nem ia reparar. Antei em direção à praça do outro lado da rua, e peguei meu celular.

"Onde vocês estão?", perguntei no grupo de Whatsapp dos meus amigos.

Raquel: "Tô chegando."

Thayná: "Presa no engarrafamento."

Raquel: "Mentira, tá é com macho!"

Eu: Amada? Hahahaha

Thayná: "Me respeita, quenga!"

Marcelo: "Gente, que baixaria é essa?"

Eu: Cadê você, meu bem?

Marcelo: "Tô chegando."

Raquel: "Ou seja, tá saindo de casa agora."

Eu: Raquel, meu anjo, você tá estressada?!

Raquel: "Eu? Tô ótima!"

Thayná: "Pois é. Parece até que não transou ontem."

Raquel: "Transei não, ó. Tava estudando, diferente de você!"

Bárbara: "Gente, alguém tá levando os remédios da Raquel?"

- Eu não falei que tava chegando? - Disse uma voz baixo, perto do meu ouvido, que me fez pular do banco da praça no susto.

- Meu Deus, o quê... - Me virei. Era o Marcelo, em seus 1,76 de altura e de pele morena. - Idiota, que susto! - Dei um soco nele de leve, que apenas riu em resposta.

A história entre Marcelo e eu é o típico caso de dois amigos em que um é apaixonado pelo outro, que não sabe que o primeiro é apaixonado por ele. A diferença entre nós e os outros casos é que eu superei quando o vi beijando a Bárbara na primeira vez que fomos ao cinema nesse ano.

Ficamos conversando sobre o filme de hoje. Alguns minutos depois a Thayná chegou, em seguida a Raquel, e por último a Bárbara e o Ivan, seu irmão mais novo. Era o mais jovem do grupo, e o único que não estava no 3° ano do ensino médio. Na verdade, eu sou o mais velho desse grupo. Fiz 19 anos semana passada. Quando estávamos todos juntos, fomos pegar o metrô. Aparentemente estavam todos muito animados para o filme de hoje, ao ponto de começarem a falar muito alto dentro do vagão. Tive receio de estar incomodando os outros passageiros, mas ao olhar ao redor vi que só havia uma pessoa olhando pra nós. Um homem com um estilo roqueiro e o cabelo azul. Pelo penteado malfeito e as roupas amassadas, parecia ser alguém que não se importa muito com o que os outros pensam. Exatamente o tipo de pessoa que eu queria ser...

- Ei Arthy, você lembra dessa cena no trailer, né? Quando ela levanta o carro e arremessa? - Fui trazido de volta do meu transe pelo cutucão da Thayná, quando fez a pergunta.

- Lembro sim, e eu não sou touchscreen. - Respondi, instintivamente afastando a mão dela.

Depois de uns 5 minutos, descemos do metrô e fomos em direção ao shopping. Não era o maior da cidade, mas estava entre os maiores. Sempre preferimos vir nesse shopping porque é afastado do centro da cidade, e por isso tem menos pessoas. Fomos logo fazer nossa seção de fotos rotineira, usando os jardins do shopping como cenário dessa vez. Depois, fomos almoçar, pra então ir ao cinema. O filme foi muito bom, apesar de não ser um filme de terror. Sinceramente, preferia muito que fosse um filme de terror, e inclusive havia um ótimo em cartaz, porém eu sou o único a gostar desse gênero, então não preciso nem dizer que a sugestão foi descartada. Quando saímos da sessão, tratei de mudar logo o assunto. Não ia aguentar mais um minuto que fosse deles falando sobre super-heróis incompreendidos.

- Gente, lembram que é hoje, né?

- O dia que você vai perder a virgindade? - Respondeu a Raquel, em tom de deboche.

- Meu Deus, Raquel! - Falou a Bárbara, pondo as mãos no rosto, surpresa e constrangida, enquanto os demais gargalhavam.

- Não, cavala! É hoje que eu vou fazer minha tatuagem.

- Vai perder a virgindade da pele então. - Ivan deu de ombros.

- E qual é o desenho? - O Marcelo perguntou. Droga.

- Er... Então... - Burro, burro, burro! Arthur, você é muito burro! - Confesso que ainda não pensei nesse detalhe...

- Detalhe?! - O Marcelo parecia indignado.

- É uma anta! - A Thayná me xingou. De certo modo, ela não está errada.

Essa tatuagem foi o resultado do jogo emocional que fiz com minha mãe na semana anterior, quando meu pai viajou e mandou uma mensagem avisando que o meu presente estava guardado na cômoda da sala. Só quando leu essa mensagem a minha mãe lembrou do meu aniversário. Como sei que meu pai seria absolutamente contrário a isso, aproveitei que ele estava fora, e dei o bote. As vezes, é melhor pedir perdão do que permissão.

- Gente, sem estresse. Nos estúdios de tatuagem tem uns espaços em que os tatuadores colocam alguns modelos. Da pra escolher lá. - Ivan, como sempre, foi a voz da sensatez do grupo.

- É, posso escolher uma arte lá. - Aproveitei a deixa do Ivan.

- Tá, vamos. Tem um estúdio aqui, né? - Indagou a Thayná.

- Tem sim, o Blue Flames. - Respondeu a Raquel.

Fomos até o estúdio, no piso abaixo do qual estávamos. Apesar de ter vindo nesse shopping tantas vezes na minha vida, nunca havia prestado muita atenção nesse lugar. Tinha um desenho lindo de uma caveira envolta em chamas azuis na vitrine. O ambiente interior também era muito bonito, sem muitas peças de decoração, diferente de todas as outras lojas. Fomos atendidos por um homem chamado Marcos, que pediu para conferir a minha identidade, e depois falou para ficarmos a vontade para escolher um desenho entre os autorais que estavam expostos em um painel ao lado da entrada pra o espaço onde os tatuadores trabalham. Era um ambiente bem limpo e organizado, e apesar de terem duas camas, só havia um tatuador lá. Um tatuador que me pareceu familiar... Senti meu corpo inteiro arrepiar e esquentar. Lá estava ele, apoiado na bancada, e mexendo no celular. O tatuador era o roqueiro do metrô.

- Enquanto você escolhe, nós vamos ali. Lembrei agora que a minha mãe me mandou a conta do cartão dela. Tá, Arthy?

- Hã? Tá. - Respondo a Raquel, voltando a realidade. O que tem naquela cara que é tão magnético?

- Vem, Marcelo. - Disse a Raquel, puxando o Marcelo pelo braço, sendo seguidos pelos outros.

Quando saíram, me foquei em escolher um desenho. Mas eram tantas opções... Estava começando a me sentir nervoso. E eram tantas artes bonita a que não conseguia escolher só uma... Até que eu a vi. Uma linda serpente marinha que dava duas voltas em torno do próprio corpo. Meio que involuntariamente, minha mão foi até o mural e a segurou.

- Gostou dessa? - Perguntou o atendente, o tal do Marcos, que ficou ao meu lado esperando.

- Sim...

- Zack, esse aqui é seu, né? - O Marcos perguntou ao roqueiro do metrô. Zack? Que nome incomum...

- Sim, é meu. - Respondeu ele, vindo até onde estávamos. Meu Deus, ele é ainda mais bonito de perto.

- É lindo! - Falei, mais afirmando sobre ele do que sobre o desenho.

- Obrigado.

- Vou querer fazer esse então. - Me voltei para o Marcos. O nervosismo cresceu tanto dentro de mim que comecei a sorrir...

- Certo. Zack, tá com tempo agora, né? - O Marcos perguntou ao Zack, enquanto passava o pagamento no cartão da minha mãe.

- Tô sim. Só chegar aí.

Depois de pagar, peguei o desenho e levei até o Zack. Céus, que homem lindo.

- Senta aí. - Disse ele, apontando pra cama. - Então, onde vai ser?

- Ahm... Eu tava pensando em fazer no braço... - Não consegui não ficar nervoso na frente dele. Pelos céus, o que tá acontecendo comigo?!

- Certo. Aqui? - Ele se aproximou e colocou o desenho sobre a lateral do meu braço esquerdo. Que cheiro bom. É um perfume cítrico.

- Na verdade... Eu pensei em fazer ela dando a volta no meu braço. É possível? - Tá brincando comigo, né? Um desenho lindo desses concentrado em um lugar só no braço? Ia ficar parecendo uma porção de macarrão escorrido.

- Da certo. Só preciso ajustar ela rapidinho.

O tatuador se virou para o computador ao lado, e começou a editar a arte. Dava pra ver a raiz preta do cabelo dele surgindo nos cabelos lisos bagunçados. Como seria a sensação de afundar o rosto naquele mar de cabelos azuis?

- Tá pronta. Agora só tirar a camisa. - Tomei um susto quando ele falou isso, pois perdi a noção do tempo no meu devaneio. Comecei a tirar a camisa, e senti o meu rosto esquentar absurdamente.

Tá, vamos lá. Normalmente, eu não sou assim. Já fiquei afim de outros caras antes, inclusive já beijei alguns as escondidas no colégio. Inclusive um deles já fez sexo oral em mim no vestiário. Porém com todos sempre foi uma atração... Carnal. Nunca me senti emocionalmente mexido por nenhum deles, a exceção do Marcelo. E mesmo assim, o que senti pelo Marcelo foi breve. Não foi forte ao ponto de me fazer tremer e esquentar como o olhar do Zack fazia. Inclusive, que olhos negros profundos...

- Desculpa, mas... Qual é seu nome mesmo? - O tatuador me perguntou.

- Ah, é Arthur... - Mas pode me chamar de seu... ARTHUR, PELOS CÉUS! Controle-se!

- Foi mal não ter perguntado seu nome antes, eu sempre esqueço. Sou Zack. Prazer. Agora deita aí e relaxa. - Ele riu no final da frase. Que risada gostosa.

- Tá certo. Haha... - Não consegui segurar um risinho. Meu Deus, eu tô perdendo a cabeça, igual a uma adolescente de 15 anos de filme norte-americano.

O tatuador ligou o motor da sua máquina de tatuagem. Parecia um tipo de caneta muito grossa. Aquele zumbido me ajudou a voltar pra realidade. E então senti o toque dele sobre a minha pele, seguido da sensação de perfuração da agulha. Tentei me concentrar em outra coisa, como a música que estava tocando.

"That's me in the corner. That's me in the spotlight."

Não era bem uma sensação de perfuração. Eram como vários arranhões seguidos. Mais próximo de um ardor do que da dor mesmo. Sem contar que o toque das mãos dele estavam ajudando a não me incomodar com isso.

"Losing my religion."

As mãos dele são firmes. Preciso. Com certeza ele sabe o que está fazendo... Pelos céus, Arthur, volte a realidade e fique nela!

"Trying to keep up with you. And I don't know if I can do it. Oh no, I've said too much. I haven't said enough."

O Zack é o tatuador desse estúdio, e nada mais que isso. Não tem porque ficar não mexido por ele. Quando você sair por aquela porta, talvez vocês nunca mais se vejam...

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A música do despertador é Umpah Umpah, do grupo Red Velvet.

A música que estava tocando no estúdio de tatuagem é Losing My Religion, da banda R.E.M.

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